Projeto Guri reúne seu coral com o músico e a banda Mantiqueira em encontro inédito em São Paulo

Roger Marzochi – Agência Estado

“Eu sempre digo que a vida é uma ilusão. Quando ela morre ou desaparece, tudo morre.” A frase do pianista cubano Gonzalo Rubalcaba, em entrevista à Agência Estado, por telefone, revela o desafio de estudantes de música em transformar sonhos em realidade e o papel da arte na sociedade. O músico veio ao Brasil a convite do Projeto Guri para realizar na Sala São Paulo, às 21 horas, um encontro inédito com a Banda Mantiqueira e o coral dos meninos do projeto, a fim de divulgar o novo programa da entidade, que visa financiar os estudos de ex-alunos que optaram pela música como profissão. A “ilusão” do menino que respirava música em sua própria casa, por onde circulavam Frank Emilio, Peruchin, Felipe Dulzaides, que visitavam seu pai, o pianista Guillermo Rubalcaba, levou-o primeiro à bateria e, depois, ao piano, com o qual chegou a tocar com Dizzy Gillespie e a vencer até um Grammy de Jazz Latino com o disco “Supernova” escolhido como o melhor em 2002. Mas em seu último disco, “Avatar” (2008), ele revela outro importante motor rítmico da sua arte. “O que se passa em nível local, nacional e além da fronteira? Quais são os ares que estão soprando nesse momento na gente que trata de reorganizar o passado, a tradição?”

Ele também vai fundo na tradição musical cubana, dando-a novos arranjos e enxergando “portas” e “janelas” para expandi-las, tem também outra preocupação da relação entre o “antigo”, o “velho” e o “atual”. Além dos “ares” da arte, no fundo, ele também fala em sua música instrumental de política. Mudou-se de Cuba em 1992 para Santo Domingo, e depois, em 1996, para os Estados Unidos. Ele não gosta de falar sobre a situação em Cuba, mas afirma: “o fato de viver fora de Cuba explica muita coisa.”

Qual o significado desse show para você, uma vez que é uma iniciativa do Projeto Guri para divulgar o novo programa para dar suporte financeiro a seus ex-alunos?

Tem um significado nobre. E, também, de muita esperança e muita ilusão. E eu estou sempre disponível para qualquer tipo de evento que estenda a mão ao talento que está para se formar. Por outro lado, vir ao Brasil uma vez mais e tocar com uma banda como essa (Mantiqueira), me dá a possibilidade de conhecer um pouco mais sobre a música brasileira. E eu penso que fazer isso pessoalmente, terá uma transcendência muito maior que ouvir um disco. A Alessandra (Alessandra Costa, diretora executiva da Associação Amigos do Projeto Guri) que pensou nesse evento é uma pessoa muito afortunada por tomar essa iniciativa.

O que o levou até seu último trabalho, “Avatar” (2008)?

“Avatar” é olhar ao redor. O que está acontecendo? O que existe? Primeiro o contexto mais imediato do que se está vivendo. Depois, o que se passa em nível local, nacional e até além da fronteira? Quais são os ares que estão soprando nesse momento na gente que trata de reorganizar o passado, a tradição? Esse é o primeiro ponto. Aí descobri que tem uma série de jovens que estão conectados com uma mesma visão sobre como fazer música. Falo de jovens com 10 a 15 anos menos que eu, que começam a definir outras tendências de se projetar musicalmente. E, tudo isso, em um contexto muito agitado como é Nova York, com uma forte convivência cultural formada por americanos nativos tratando de preservar sua memória, os latino-americanos chegando, assim como os europeus e asiáticos. Essa geração da qual estou falando, no grupo de gente de Avatar é, até certo ponto, representativo de um coletivo tanto americano como latino, como cubanos, que tem a mesma aspiração: a integração.

Há obviamente uma questão política dos ventos que sopram nesse processo? Qual a opinião sua com relação a Cuba? É algo que você gosta de falar, ou você diz isso em sua música?

Está dentro da música. Mas o fato de viver fora de Cuba explica muita coisa. Isso vale para qualquer cidadão do mundo. O fato de deixar sua terra, deixar suas coisas, sua história para trás, e se aventurar a buscar um espaço fora do teu lugar, de competir fora do seu lugar. O fato de encontrar tribuna, cenários e estruturas fora do contexto já fala por si só.

Percebi que você não gosta de falar sobre isso.

Nunca o faço. Se faço, digo de maneira respeitosa. Da forma que não esteja fazendo uma luta a quem pensa diferente. Pelo contrário. O mais importante é escutar todos os lados. O mais importante é somar todas as opiniões. E essa soma é o sinal que se pode dar para uma opinião balanceada sobre Cuba ou sobre qualquer outro tema. Cada setor da sociedade sabe em que medida dizer a realidade que está vivendo. Em termos gerais, Cuba precisa do mesmo espírito da Revolução de 59. O que quero dizer com isso? Creio que há muito tempo a chamada Revolução acabou.

Sobre o show, será a primeira vez que você tocará com a Mantiqueira?

Sim.

Qual será o repertório?

Será basicamente brasileiro, com músicas de João Bosco, cuja obra eu conheço bastante. Terá as obras originais da orquestra também. Vou fazer alguma coisa sólo, vou tentar colocar duas peças de origem cubana tradicionais, com novos arranjos. Mas o som será, basicamente, muito brasileiro.

Todas as músicas tradicionais cubanas as quais você vem preparando arranjos e a base rítmica cubana têm essa transcendência também?

Tenho um critério sobre o antigo, que não é necessariamente o velho. O antigo nunca vai criar resistência a permanecer como parte do atual. Porque o antigo contém bases sólidas que determinam, ou determinaram, a atualidade. Se falarmos do velho, falaremos de coisas que serviram em algum momento, mas morreram, caducaram. E desapareceram porque não encontram função na atualidade. O antigo já mantém indicando um caminho cheio de valores e posições que podem conviver ou servir de estímulo para o que se faz na atualidade. Não estou dizendo que se deve repetir o antigo. Seria um erro.

No show, você comentou que pretende tocar duas músicas tradicionais cubanas. Quais são elas?

Cuba é muito rica em repertório. Tem muitos estilos. Mas me chama muito a atenção a época da Trova Tradicional, a Trova Antiga. Nessa época, se punha muito interesse num balanço entre a poesia, a função da harmonia e o motor rítmico. Havia uma integração, a música surgia como um todo, tanto no conceito métrico quanto harmônico, como uma ferramenta dramática para dizer a história por meio da poesia. Essa época foi extremamente importante para a música cubana. Estou falando de um gênero que contém tudo, letra, música, formato instrumental. Havia um pensamento virtuoso de como dizer a música, como dizê-la, como estruturá-la. Um tema muito significativo dessa época é a música Longina, uma música chave do período. Longina era mulher, supostamente pelo que diz a letra, voluptuosa com uma série de atributos tremendos. Mas era a capacidade que tinha o autor para descrever o que via, sem cair em nada banal, comum. E sim, a partir da realidade, tomava-se um voo de inspiração tão alto esses senhores quando narravam o que viviam que é o faz dessa uma obra permanente.

E no show você pretende tocar essa música?

retendo tocá-la porque tem muitas portas que se podem abrir. Portas e janelas para encontrar um modo atual de projetá-la. É uma proposta que segue dando oportunidades para trabalhar. Essa é a razão de ligar-me a ela, e minha possibilidade como músico. Quando encontro essa possibilidade, com um respeito tremendo com a música original. Mas essa possibilidade me toma muito tempo. Eu creio que seria infeliz de fazê-la exatamente como quando a criaram. Para homenageá-la tem que se encontrar um cenário apropriado. Onde está o ponto em que a música permite a troca ou a expansão? Para mim, é muito difícil fazer isso. Eu busco documentos sobre a música, a estudo, até me convencer de uma forma respeitosa.

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