25/08/2003 – 02h35

Gonzalo Rubalcaba apresenta-se em Ouro Preto e em São Paulo

CARLOS CALADO
Especial para a Folha de S.Paulo

Paulistas e mineiros terão a chance de apreciar mais uma vez, ao vivo, a música de um dos mais brilhantes instrumentistas de Cuba. O pianista e compositor Gonzalo Rubalcaba, 40, vai se apresentar dias 30 e 31, pela Mostra Sesc de Artes, em São Paulo. Depois encerra a primeira noite do Tudo É Jazz – Festival Internacional de Jazz de Ouro Preto, que acontece de 4 a 6 de setembro.

Falando à Folha por telefone da Flórida (EUA), onde vive, Rubalcaba diz que não se lembra de quantas vezes já tocou no Brasil. Desde 1991, quando estreou em São Paulo à frente do Grupo Proyecto, participou de festivais de jazz, como dos extintos Heineken Concerts e Free Jazz, além de tocar em algumas casas de shows. Três anos atrás, na última temporada paulista, firmou no palco parceria com os brasileiros João Bosco e Ivan Lins.

“Para mim, assim como para outros artistas, o mercado musical brasileiro é um dos mais difíceis no mundo. Não porque falte sensibilidade aos brasileiros, mas porque eles são muito exigentes. Essa exigência se explica pelo nível muito alto da criação brasileira. Por isso, tocar no Brasil é sempre um desafio, mas um desafio muito saboroso”, diz o pianista cubano.

Lirismo

Introduzido na cena internacional do jazz por ninguém menos que o norte-americano Dizzy Gillespie, em 1985, Rubalcaba despontou rapidamente como novo talento desse gênero.

Filho do pianista Guilhermo Rubalcaba, forjou um estilo bastante pessoal e lírico, que mescla influências de mestres do jazz, como Thelonious Monk, Keith Jarrett e Bill Evans, com a rica tradição musical de Cuba.

Além do jazz, a música brasileira também tem um lugar especial entre as fontes sonoras de Gonzalo Rubalcaba.

“Há muitos elementos comuns na música de Cuba e do Brasil, não só em termos de forma, mas também a atitude dos brasileiros, seu caráter e sua personalidade. É muito bonito ver que, apesar de tanta distância geográfica, há muitos valores e códigos dentro de nossas tradições que se relacionam”, analisa.

Essas afinidades, segundo o pianista, facilitam seu diálogo musical com o Brasil.

“Quando toco com João Bosco, com Ivan Lins ou outros brasileiros, eu não preciso usar códigos da música brasileira. Tocando somente com a experiência da música cubana, sinto que elas se unificam da melhor forma. Embora se acredite, mundialmente, que a música cubana é 90% ritmo, eu penso que há um erro nessa idéia. O cubano também é muito romântico, é muito melódico –fatores esses que também determinam a música brasileira”, diz.

Desta vez, tanto em São Paulo como em Ouro Preto, Rubalcaba vai exibir seu conhecido talento de solista. Somente nos shows da Mostra Sesc de Artes contará com a participação especial da cantora carioca Leny Andrade.

“Não me recordo de ter tocado com ela, mas já nos encontramos em vários países. Além do grande respeito musical que tenho por Leny, sinto um carinho incrível por ela. As ligações afetivas sempre ajudam muito a que nos entreguemos mais na música”, diz o pianista.

Outra cantora brasileira elogiada pelo instrumentista cubano é a paulista Luciana Souza, que também faz parte da programação da mostra do Sesc e do festival de Ouro Preto. “Luciana tem um enorme talento. É uma artista batalhadora, com um trabalho bastante positivo e profundo”, avaliza Rubalcaba.

Quanto ao repertório de suas apresentações, o pianista cubano é mais evasivo.

“Para mim é sempre difícil antecipar o programa de meus concertos”, diz, observando que, apesar de estar atualmente mais concentrado no repertório de seu último disco (“Straight Ahead”, de 2002, que inclui composições próprias e releituras de clássicos do jazz), nem sempre o toca.

“Só quando estou no palco, sentindo a energia da sala e da platéia, é que eu realmente decido o que vou fazer”, afirma Rubalcaba.

Carlos Calado é crítico de música e autor de “O Jazz como Espetáculo”, entre outros livros